MAIS DE RENATO RUSSO
TRECHOS DO LIVRO “O TROVADOR SOLITÁRIO” (Arthur Dapieve)
Renato Russo morreu à 1h15m de 11 de outubro
de 1996, de complicações decorrentes da Aids, no seu
apartamento na rua Nascimento Silva, em Ipanema, Zona
Sul do Rio de Janeiro.
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Seu pai, também Renato, paranaense, era
economista do Banco do Brasil. Sua mãe, dona Maria do
Carmo, pernambucana, era professora de inglês. No final
de 1962, chegou ao mundo Carmem Teresa, sua única
irmã. Nessa época, os Manfredini — família originária de
Sesto Cremonese, perto de Milão, norte da Itália —
moravam numa casa na rua Maraú, bairro Bananal, Ilha do
Governador. Uma casa que voltaria a abrigar Renato no
período entre a volta de Brasília, com a Legião Urbana, e a
decisão de sair em carreira familiar solo na rua Nascimento
Silva.
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Todas as manhãs, antes de sair para o trabalho,
seu Renato escutava os LPs e a música se espraiava pela
casa. Júnior pegava carona na coleção do pai, tomando
contato com Benny Goodman e Glenn Miller antes mesmo
de aprender a ler, o que aconteceu no Colégio Olavo Bilac,
na própria Ilha do Governador, com mestras que
posteriormente seriam citadas na letra de O descobrimento
do Brasil (1993)
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Renato não era, no entanto, um menino-prodígio,
não no sentido de privar-se dos enormes pequenos
prazeres da infância, privar-se de soltar pipa, de brincar de
pique, nadar na praia, andar de carrinho de rolimã. Nunca
fez teste de QI. Era inteligente e sensível, não
superdotado.
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Entre a rua Maraú e a Super Quadra Sul 303, ele
passou uma temporada importante fora do Brasil.
Quando Renato tinha sete anos, a família Manfredini
mudou-se para Nova York, mais especificamente para
Forest Hill, no distrito de Queens. Renato pai ia fazer um
curso. Para os filhos em idade de alfabetização de uma
professora de inglês, a estada de dois anos nos Estados
Unidos foi muitíssimo bem aproveitada, e teria reflexos
notáveis em toda a sua formação.
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Quando os Manfredini voltaram dos Estados
Unidos para a rua Maraú, neste mesmo ano, Renato estava
com a idade mínima exigida pela Cultura Inglesa para
matrícula de alunos. Assim, o seu aprendizado prosseguiu,
na filial da Ilha do Governador. Mais tarde, em Brasília, ele
passaria de aluno a professor da Cultura Inglesa — sua irmã
estudaria no Instituto Britânico Independente. Até o final
da vida o seu diário, no qual fazia anotações mesmo em
meio às gravações de discos da Legião Urbana, seria escrito
majoritariamente em inglês.
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9O domínio do inglês também facilitou, e muito,
sua paixão pelo rock. Seu primeiro disco do gênero foi The
Beatles, mais conhecido como “o álbum branco”, duplo,
magnífico, contendo músicas como Helter skelter, While my
guitar gently weeps e Blackbird. A banda de John, Paul, George
e Ringo foi sua primeira paixão, como havia sido, estava
sendo e haveria de ser, com tantos meninos e meninas
antes, ao mesmo tempo e depois dele, em todas as partes
do mundo.9
9Depois dos Beatles, Renato mergulhou em Elvis
Presley e em Bob Dylan. Embora tenha sido o iniciador
musical da irmãzinha, nunca conseguiu convertê-la ao
culto ao bardo fanho de Duluth, Minnesota, nascido
Robert Allan Zimmerman. Carmem sentia-se frustrada
porque não conseguia descobrir nada sozinha, Renato
tomava sua frente em tudo. Era a figura do irmão mais
velho de fato e de direito. Depois dela, muitos, inclusive
o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo
Bonfá, seus companheiros na Legião Urbana, inclusive
milhares de fãs, também o viram como o irmão mais velho
a ser seguido.9
9Antes do furacão punk — que afetaria
profundamente sua vida e sem o qual não existiria Legião
Urbana — Renato passou por uma fase de ouvir muito
rock progressivo. Era precisamente o tipo de música
contra o qual Johnny Rotten se insurgiria, no célebre verão
londrino de 1976, ao usar uma camiseta do Pink Floyd
com os dizeres “I hate” (Eu odeio) pichados por cima do
nome do grupo. Mas, àquela altura do campeonato, Renato
Manfredini Jr. ainda pensava em usar seus parcos
conhecimentos de piano para se tornar Keith Emerson, o
rei dos teclados no trio com Greg Lake e Carl Palmer. Ao
mesmo tempo, apreciava as cantoras americanas Linda
Ronstadt e Joni Mitchell, dificílimas.
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9Renato lia vorazmente. Muito e muito rápido. Tão
rápido que às vezes as pessoas duvidavam que ele pudesse
ter lido determinado livro num curto espaço de tempo.
Nem Carmem acreditava. Desconfiada, procedia, então, a
uma sabatina. E invariavelmente comprovava que seu
irmão tinha mesmo devorado o livro em questão.
Apreciava muito poesia — os sonetos de Shakespeare,
P.B. Shelley, W.H. Auden, o beatamericano Allen Ginsberg,
Jean-Arthur Rimbaud, Fernando Pessoa e todos os seus
heterônimos, Carlos Drummond de Andrade, Adélia
Prado — e filosofia — a coleção Os pensadores, da editora
Abril Cultural, súmula das reflexões de gente como Blaise
Pascal, Friedrich Nietzsche e Bertrand Russell, deu-lhe
muito o que pensar e reprocessar. Mais adiante, ele se
enamoraria por biografias, de astros e grupos de rock e de
artistas de cinema.9
9Em 1975, aos 15 anos, Renato caiu gravemente
doente. Diagnóstico: epifisiólise, doença de caráter virótico
que praticamente dissolveu a cartilagem que ligava o seu
fêmur esquerdo à bacia. Sua perna ficou pendurada ao
corpo somente pela carne e pela pele. Renato teve de ser
operado para a colocação de três pinos de platina. Foi
vítima de erro médico. Nenhum pino ficou onde deveria
ter ficado, sendo que um deles foi cravado em seu nervo
ciático, causando dores lancinantes. Foi operado de novo.
Passou seis meses de cama, seis meses andando de cadeirade rodas, seis meses se movimentando de muletas, um ano e meio sofrendo.
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Renato leu como um louco e
decidiu se interessar ainda mais seriamente por música.
Chegou a criar uma banda fictícia para se distrair no seu
quarto de paredes cobertas de fotos, a 42th Street Band, na
qual o cantor/alter ego se chamava Eric Russell. Esse
sobrenome, compartilhado por um de seus pensadores
favoritos, o inglês Bertrand Russell, e sonoramente
parecido com duas outras fontes de admiração, o também
filósofo Jean-Jacques Rousseau e o pintor primitivista
Henri Rousseau, ambos franceses, acabou resultando no
“Russo” que adotaria, alguns poucos anos depois, como
sobrenome artístico. Na verdade, Renato Russo seria mais
que um sobrenome artístico.
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9Difícil dizer se o filho do economista do Banco do
Brasil foi se aproximando da turma por conta do punk
rock ou foi se aproximando do punk rock por causa da
“Turma da Colina”. O fato é que não muito tempo antes
ele passara seis meses economizando 74 cruzeiros — uma
pequena fortuna — para comprar um LP da banda
progressiva holandesa Focus na Modern Sound, loja em
Copacabana, Rio de Janeiro, cidade onde ainda residiam
seus avós, tios e primos. No sentido inverso, Fê Lemos
viria a se espantar com o tamanho da discoteca de rock dos
anos 60 e 70 que Renato formara em seu quarto na SQS
303 — Era a troca voraz de figurinhas, característica do
primogênito dos Manfredini.9
9Numa tarde arquétipica de Brasília, provavelmente
1980, um bando de adolescentes entediados estava
sentado batendo papo nos pilotis da SQS 213,
superquadra destinada a diplomatas e bancários. Foi
quando Dado Villa-Lobos e Dinho Ouro Preto viram
quatro caras esquisitos surgirem na distância. Parecia filme
de caubói. Mas em vez de chapéus e revólveres aquela
quadrilha usava camisetas e jeans rasgados e portava latas
de tinta em spray. Eles passaram pelos adolescentes,
chegaram perto de um muro e picharam o logotipo do
grupo Aborto Elétrico, AE, sendo o “A” aquele dos
anarquistas. Dinho se alvoroçou: “Opa, o que é isso?”
Porém, naquele momento, ele e Dado travaram conhecimento
apenas metafórico com os caras que, tempos
depois, descobririam ser Renato Manfredini Jr., Felipe e
Flávio Lemos e Antônio Marcos Lopes de Souza.9
9Fora do Aborto, durante algum tempo Renato
Manfredini Jr. incorporou a persona do Trovador Solitário.
Ele usava um banquinho e um violão, não para fazer
bossa nova e sim para dar vazão à sua porção Bob Dylan,
soltando um vozeirão que deixaria João Gilberto com dor
de cabeça. Ele transcreveu para o instrumento as músicas
do Aborto Elétrico, juntou com Química e com novas
composições, como Eduardo e Mônica e 18 e 21 (futura Eu
sei), e passou a abrir os shows de outras bandas surgidas
em torno da Colina. Embora as platéias fossem
compostas por punks elétricos, Renato era respeitado.
Afinal, estivera à cabeça da primeira banda punk de
Brasília, matriz direta ou indireta das outras. Como
Trovador Solitário, sem o estresse gerado pela vida em
grupo, ele pôde afiar sua pena. Não que as letras do Aborto
Elétrico fossem ruins, não mesmo. Mas o período de
recolhimento acústico levava inevitavelmente a um salto
de qualidade.
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9Num dia de 1982, Renato encheu o saco do exílio
auto-imposto como Trovador Solitário e chamou Marcelo
Bonfá, então também brigado com os Metralhaz, para
implementarem juntos um projeto tipo The The (isto é, a
pessoa jurídica do guitarrista inglês Matt Johnson): com um
no baixo e outro na bateria, eles convidariam músicos,
sobretudo guitarristas, agora que Brasília estava cheia
deles, para experiências diversas. Não deu muito certo.
Mas ficou o nome-conceito: Legião Urbana. E logo Renato
e Marcelo chamaram Eduardo Paraná para ser o guitarrista
fixo da banda. Ele, no entanto, tinha um problema, ao
menos do ponto de vista de dois punks que amavam os
Buzzcoks e os Comsat Angels: tocava bem demais.9
9Um dia de 1984 veio a notícia. Renato estava no
hospital. Havia cortado os pulsos. A primeira reação de
Dado foi de desespero: “Meu Deus, o Renato cortou os
pulsos!” Logo, porém, ele e Marcelo se certificaram de que
os ferimentos não eram sérios o bastante para levá-lo à
morte. O próprio Renato fazia questão de chamar o gesto
de “acidente”. “Eu cortei os pulsos não para me matar
nem nada, foi de frescura, de babaquice, eu tava bêbado”,
contava. Fora uma besteira para chamar a atenção de
algum rapaz. Pois Renato era um carente, capaz de se
apaixonar com facilidade. E de se frustrar com a mesma
facilidade. Sua homossexualidade não era mais segredo para
a família havia algum tempo. Aos 18 anos, ele havia saído
do armário diante da mãe. Dissera que não ia se casar com
a fotógrafa Ana Paula Camarinha, desde sempre uma
grande amiga, pelo simples fato de que era homossexual.
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9Renato tinha crises de depressão, às vezes
associadas a uma revolta por assim dizer metafísica. Um
dia seu pai foi surpreendido pelo barulho vindo do seu
quarto. Lá chegando viu-o jogando pilhas e pilhas de
livros no chão, com raiva. “O que houve, filho?”, tentou
entender. “Não adianta isso tudo aí, pai, eles não têm
respostas para as minhas perguntas”, reclamou. Por isso,
não raro tentava preencher esse vazio com álcool: bebia
além da conta. E dava trabalho à família e aos amigos.9
9Dez anos antes, a sua inatividade criava um
problema prático, a ser resolvido urgentemente. Ele
havia perdido alguns movimentos das mãos, ficando
impedido de tocar baixo durante algum tempo.
Simultaneamente, Renato estava mesmo pensando em ter
mais liberdade para cantar e para cuidar dos interesses da
banda. A Legião Urbana tornava-se um quarteto quase
sem querer. Marcelo então convidou o baixista Renato
Rocha, também conhecido como Billy e Negrete, membro
da facção hardcore da Turma da Colina.9
9“Ora bolas, nós estamos numa sociedade que tem 60 por cento de analfabetos. Eu prefiro falar numa linguagem simples, mas dizendo coisas
que realmente me são caras, preciosas, tipo: “Disseste que se tua voz fosse igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira”. Isso poderia ter sido escrito há dois mil anos, como pode ter sido escrito agora. Daqui a dois mil anos, ainda vai existir vizinhança. A gente pegou um dos sonetos de Camões e musicou.
Aquele soneto mais famoso, o soneto 11, que é: “O amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente”. Se alguém procurar Camões por causa dessa música [Quando o sol bater na janela do teu quarto], eu já fiz o meu trabalho. E eu sei de gente que já leu Rousseau e quis saber quem era Bertrand Russel porque citei os dois em uma
entrevista”. (Renato Russo, 1989)
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9Apesar de toda sua tenacidade, nem mesmo
Renato podia ter certeza se a Legião Urbana ia conseguir vencer ou não. Certa tarde cinza e úmida, ele voltou da EMI para o Bandeirantes de carona com Rondeau e Ana Maria Bahiana. Quando a jornalista abriu a porta e levantou para que o cantor pudesse descer — o Fiat tinha duas portas — na Barata Ribeiro, pela primeira e última vez naquela que seria uma longa amizade os dois falaram
de trabalho. Ele a abraçou forte e perguntou, olhar
carente: “Amiga, será que isso tudo vai dar certo?” Ana Maria não titubeou: “Segura a onda, meu amigo, vocês vão ser muito maiores do que a gente pode imaginar agora.” E Renato Russo enfrentou a chuva com sua japona.
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9“Para ficar fácil de a gente sobreviver ou, então, não ficar tão difícil, é importante você ter, justamente, uma rede de amigos. E o que acontece é que você vai descobrir, às vezes, que esses seus amigos e amigas são mais do que a gente chamaria de amigos e amigas. São pessoas que realmente fazem parte da tua vida, com quem você tem um contato físico, com quem você tem uma troca espirtual. E, graças a Deus, eu tenho isso no trabalho. Eu não vejo muito o Dado e o Bonfá, mas às vezes a gente faz lá um cachorro-quente, domingo teve um churrasco, e é uma delícia, porque estão as crianças, você fica numa boa, sem fazer nada. Amigo é para a gente se divertir”. (Renato Russo, 1993)
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9Então, a primeira faixa do álbum, Será, virou um
hit. Quase na ordem em que se encontravam no disco, as outras foram se seguindo na predileção dos ouvintes das rádios, até Por enquanto. Em termos de vendas, o LP passou de passagem pelas 50 mil cópias vendidas. Havia uma demanda reprimida por Legião Urbana. E o quarteto teve de vir novamente de Brasília para atendê-la. Dessa vez, a mudança seria definitiva. Renato, por exemplo, chegou de vez em agosto de 1985 e foi morar na mesma casa de sua
infância, na rua Maraú, na Ilha do Governador.9
9Entre as pessoas que ouviam rock — gozado, porque são as grandes amizades que eu tenho até hoje —, o elo foi a música. Tenho um grande amigo em Brasília. Outro dia, estávamos conversando e eu perguntei:
“Como a gente ficou amigo?”. E ele me contou que tinha voltado de Paris com uns discos e eu disse: “Oh, discos novos na cidade!”. Importados e tal. Aí, eu fui lá catar alguns e ficamos amigos. (Renato Russo, 1989)9
9Renato consumia livros com a mesma voracidade
que consumia discos. Muitos desses livros eram de poesia.
Eles serviam para afinar seus próprios versos — mas não para fazê-lo considerar-se um poeta. Em 23 de janeiro de 1988, uma entrevista com ele seria publicado no prestigioso caderno Idéias, do Jornal do Brasil. Nela, ele declarava ao repórter Luiz Carlos Mansur: “(…) Me vejo
mais como um letrista mesmo. Eu escrevo alguma poesia em casa, mas essas eu não tenho coragem de mostrar.” E ia adiante, falando de poesia, prosa, filosofia, ética. Às vezes uma de suas poesias — ou ao menos de versos que não haviam logrado se transformar em canções — ganhava coragem e via a luz do dia. No número 1 da revista Reflexo, por exemplo, — publicada em outubro de 1986, havia um poema de sua autoria, batizado de Scorpio rising, mesmo título de um filme underground de 1963, do
diretor californiano Kenneth Anger.
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9“A nossa geração, o pessoal mais novo, tem sempre uma saída para o camp, uma liberdade maior para transar até o kitsch, enquanto as gerações
mais antigas da área de cultura têm uma coisa muito ressentida, muito angustiada. E eu não quero ser uma pessoa amarga. Às vezes, eu leio uns artigos no caderno Idéias [do Jornal do Brasil] e penso: “Pô, esse cara, quando acorda, não deve nem sorrir para o sol nascendo”. Fica uma coisa muito deprê. Mas a Bíblia e a filosofia oriental ensinam que têm coisas que não são dadas ao homem conhecer. Senão, ele já conhecia!” (Renato Russo, 1988)9
9Durante todo o tempo, porém, Renato conduzia a
platéia para onde queria, qual um pastor de ovelhas
desgarradas. As pessoas cantavam “É Legião, é Legião, olê, olê, olê…” como se estivessem no maior estádio do mundo, ali ao lado, torcendo por seu time do coração. De vez em quando, Renato as botava para gritar “hei, hei, hei” com os braços levantados, o que fazia pensar num comício nazista revisto por Alan Parker em The wall, ópera-rock do Pink Floyd. Tudo soava melhor, e mais apropriado, quando o apelo vinha de outra fonte. “Ergam suas mãos em oração!”, era a senha para a execução de Geração Coca-Cola. Pois era religioso o fervor com que o público acompanhava sucessos como Tempo perdido ou Será. Nesse clima, a despedida do cantor era mais que coerente: “Que Deus abençoe vocês. Obrigado, boa noite.”9
9“Evite a primeira dose. Eu sempre fui alcoólatra. Tudo começou com o álcool. Só que álcool é uma droga aceita; então, não se considera droga. Álcool é das piores coisas que existem. Eu tenho amigos alcoólatras e vejo o processo dessas pessoas. Só que eu não falo nada. Se a pessoa quiser ajuda, ela tem o meu exemplo. Eu falo do que está se passando comigo”. (Renato Russo, 1994)
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9“Vivi em Brasília dos 13 aos 23 anos, e ali, depois de algum tempo,meu mundo da infância, que era muito seguro, começou a mudar. Se entrar aqui o Júnior [uma auto-referência], com 8 anos de idade, é a
mesma pessoa. Talvez eu estranhe se entrar o Júnior com 16, 18 anos de idade. Mas os valores são os mesmos. Eu era muito confuso. Foi uma
fase que durou muito tempo, até o comecinho da Legião Urbana. Eu
me perdi. Eu tinha uma vida de sonho. Aos 17 anos, acabou, sabe? Fui
para o mundo. Surgiram aquelas confusões sexuais da adolescência e
dúvidas”. (Renato Russo, 1995)9
9“Veja a diferença do que acontece no exterior: na Europa, estão fazendo
filmes pornôs sobre safe sex! Toda essa movimentação em torno da
Aids só serviu para reforçar ainda mais a união do movimento gay. Aqui,
acontece o contrário: foi preciso matar o Luiz Antônio [Martinez Corrêa,
diretor de teatro] para os artistas iniciarem uma campanha, porque os
homossexuais estão acuados, com medo. Os hemofílicos estão fazendo,
estão lutando, mas precisava morrer o Henfil [cartunista] para este
problema sensibilizar a população?” (Renato Russo, 1988)9
9“Eu sou psicótico, igualzinho ao Axl Rose [do Guns N 'Roses]. Se alguém
apronta alguma coisa, eu saio quebrando. Eu quebro, eu sou do tipo “eu
vou descer e vou dar porrada mesmo”. E já fui muito criticado por
causa disso. Então, se é para ter problema, eu prefiro não sair. Porque,
depois, eu vou tacar pedestal, vou gritar com todo mundo, ficar puto
no hotel. Ninguém sabe desse tipo de coisa. Mas eu sou do tipo que
quebra quarto de hotel. A gente não faz publicidade em cima disso,
porque não precisa, e a gente não faz isso por publicidade”. (Renato Russo, 1993)




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