ARTIGO DEFINIDO

FOLHEAR REVISTA CONTEMPORÂNEA8888888

Walter Rabello


A MULHER QUE ESPERA
Por quem eu não sei. Mas esta mulher sempre está lá de plantão embaixo da ponte por onde passo a caminho da academia de ginastica,esperando.
As vezes recem acordado e de mal humor,eu caminho escutando o meu podrunner favorito no meu velho I-pod, tentando entrar na sintonia da ginástica que me espera; lá está a mulher que espera, parada, olhando reta para os ônibus que passam perto dela sem saber o que ela espera. A mulher que espera me tira da sintonia de robozinho bem treinado a caminho da academia. Não importa o que esteja acontecendo comigo no momento, sempre que eu vejo a mulher que espera, ela invade o meu pensamento por alguns minutos da minha vida. O que será que ela espera?
Eu espero uma boa corrida na academia, que eu não caia ou machuque o calcanhar como tem acontecido ultimamente…mas não é essa a espera da mulher que espera! Creio que ela espere por alguém, por um amor que se foi e não voltou. A sua vida parada ali na espera de todos os dias que eu passo, a mulher parada, espera.
Ja pensei em parar e conversar com ela, que sempre está parada lá no mesmo lugar embaixo da ponte, esperando… com temperatura abaixo de zero ou com calor acima dos 30 graus, a mulher que espera sempre está lá olhando para o horizonte; se é que existe horizonte embaixo da ponte onde a mulher espera, mas seria por demais indelicado perguntar por quem a mulher que espera, espera? E nas poucas vezes que vou a academia e não vejo a mulher que espera embaixo da ponte, eu lembro da mulher que espera com muito carinho e sinto saudades. Quando não espera embaixo da ponte, onde esperará a mulher que espera?
Nao sei porque esta mulher que espera me importa, afinal poderia passar por ela a caminho da academia e nem perceber o que ela espera. Com certeza ela não espera por mim pois sempre que passo ela me ignora e não vem correndo me abracar com lágrimas nos olhos…
Por quem será então que ela espera? Será que ela é louca? Pelo menos ela espera por alguém e eu? O que será que eu espero? A mulher que espera, espera com muita dedicação. Será que eu sou louco por nao saber o que esperar ou por nao querer esperar ali, junto com a mulher que espera?
Das várias montagens do “Esperando por Godot” do Becket que eu vi, nao gostei de nenhuma. Eu, na verdade, nunca gostei muito de esperar. O teatro de “Esperando por Godot” nada mais é do que uma grande espera. Será que a mulher que espera conhece o trabalho de Beckett? Será que a sua espera foi influenciada por ele? Será que a mulher que espera nunca cansa de esperar?
As vezes eu penso que a mulher que espera é apenas uma louca e que não espera nada, mas que fica parada ali embaixo da ponte fingindo que tem o que esperar…ou que talvez espere a morte.

Walter Rabello é carioca de nascença, Paulistano de coração, nova-iorquino por opção, além de natural e deliciosamente petulante. Confira suas PETULÂNCIAS



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CARTA AO LEITOR

Feliz ou infelizmente ninguém chega a uma certa idade sem passar pela dor e pelas perdas.

Morremos e renascemos a cada exposição à dor e fragilidade. Muitas obras e alguns estudos suscitam destas perdas e ganham forma. Renato Russo é um exemplo de artista que tem em sua obra a marca de dores e da experiência com a melancolia – culminada por uma morte quase suicida, é sobre ele nossa matéria de capa. No ano em que faria 50 anos Renato está cada vez mais presente no inconsciente coletivo – não apenas de sua geração – mas na contemporaneidade.

No Dica Curta desta edição o Músico e Professor de Literatura José Miguel Wisnik relata a dimensão aérea da palavra resultante da melancolia. Sua palestra – “Se o meu mundo caiu eu que aprenda a levitar” – proferida no Programa Café Filosófico, traça uma analogia entre melancolia e arte.

Maria Emilia Genovesi, apostando no amor, mergulhada na reflexão de que “Amar transcende os conceitos humanos da sabedoria moderna”, sai da melancolia e revela sua criatividade e amor a vida.

Nosso convidado especial Walter Rabello, trás para o Artigo Definido – diretamente de Nova York, a angústia melancólica de ver a espera da “mulher que espera embaixo da ponte”.

E você?

O que está esperando?

Boa Leitura,

Simone Costa – Editora

CINQUENTENÁRIO DO POETA

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